Movimento de consumo mais consciente fortalece o mercado de acessórios e muda a forma como as pessoas constroem imagem pessoal
A relação das pessoas com a moda mudou. Nos últimos anos, o consumo impulsivo de roupas vem dando espaço para um comportamento mais estratégico, versátil e consciente. Em vez de renovar completamente o guarda-roupa a cada estação, consumidores passaram a buscar peças capazes de transformar produções de diferentes formas — e os acessórios ganharam protagonismo nesse cenário.
Segundo relatório da ThredUp, uma das maiores plataformas globais de revenda de moda, o mercado mundial de second hand deve ultrapassar US$ 350 bilhões até 2028. O levantamento aponta que consumidores estão priorizando peças versáteis, duráveis e com maior potencial de reaproveitamento dentro do guarda-roupa.
Já uma pesquisa da McKinsey em parceria com o Business of Fashion revelou que a busca por “consumo inteligente” e “compra consciente” está entre os principais movimentos que vêm redefinindo o varejo de moda global, especialmente após o aumento do custo de vida e da saturação do fast fashion.
No Brasil, esse comportamento também aparece no varejo. Dados da Opinion Box mostram que mais de 70% dos consumidores brasileiros afirmam tentar comprar roupas de forma mais consciente, priorizando peças com maior durabilidade e versatilidade.
Esse movimento ajuda a explicar o crescimento dos acessórios como ferramentas estratégicas de styling.
Lenços, colares, brincos, braceletes e broches passaram a ocupar um papel muito maior dentro das produções justamente porque conseguem modificar completamente a percepção visual de um look sem exigir novas compras em excesso.
Segundo Paula Barone, proprietária da Stella B e consultora de imagem, o consumidor atual está muito mais preocupado em construir identidade visual do que simplesmente seguir tendências.
“Hoje existe uma busca muito maior por autenticidade. As pessoas querem repetir roupas de maneiras diferentes, criar novas leituras para peças que já possuem e consumir de forma mais inteligente. Os acessórios ajudam exatamente nisso”, afirma.
A especialista explica que o conceito de “armário inteligente” vem ganhando força principalmente entre mulheres que buscam praticidade sem abrir mão de estilo.
“Muitas vezes, um mesmo blazer pode parecer completamente diferente dependendo dos acessórios usados. Um colar mais marcante, um lenço ou um bracelete mudam a imagem daquele look sem necessidade de trocar a roupa inteira”, explica Paula.
O movimento também acompanha uma transformação importante no comportamento da moda: a valorização do styling pessoal.
Segundo dados da plataforma Pinterest Predicts, buscas relacionadas a “personal style”, “capsule wardrobe”, “styling hacks” e “acessórios statement” cresceram globalmente nos últimos meses, reforçando o interesse por combinações mais criativas e personalizadas.
Outro comportamento que vem chamando atenção é o crescimento do chamado “repeating outfit culture”, tendência que ganhou força principalmente entre influenciadoras internacionais e celebridades que passaram a repetir looks de forma intencional, apostando justamente na mudança dos acessórios para criar novas propostas visuais.
“Existe uma mudança cultural importante acontecendo. Antes repetir roupa era visto de forma negativa. Hoje, repetir peças de maneiras diferentes demonstra inteligência de estilo e autenticidade”, comenta Paula Barone.
Além da estética, os acessórios também aparecem como alternativa financeiramente mais acessível para renovar produções sem grandes investimentos.
“O acessório democratiza a moda. Muitas pessoas conseguem atualizar o visual e trazer sofisticação através dos detalhes, sem precisar reconstruir o guarda-roupa inteiro”, afirma.
Outro ponto importante é que a moda atual vem priorizando cada vez mais identidade pessoal em vez de padronização.
Peças vintage, acessórios autorais, pedras naturais, mix de metais e composições mais personalizadas aparecem justamente como resposta ao excesso de looks iguais impulsionados pelas redes sociais nos últimos anos.
“A moda está voltando a valorizar a individualidade. Hoje o consumidor quer se reconhecer na própria imagem e não apenas reproduzir tendências”, finaliza Paula.
